Ter até que tem
Crônica do colunista Lucca Tartaglia
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Lucca Tartaglia
5/27/20261 min read


Tem, Sô João, mas acabou. “Tem ou acabou, Geraldo?” As duas coisas: TEM, porque sempre tem aqui na loja ou no estoque, mas ACABOU, porque não tem desde a semana passada. “O fornecedor atrasou?” Pior que foi. “Então tinha, mas não tem, certo?” Uai, tinha, porque tem, mas acabou, aí vai ter de novo, mais tardar na sexta, quando chegar. “Fala logo que não tem, companheiro!” Eu vou mentir para o senhor?
“Por isso que o país não vai para frente.”
Ir até que vai, Sô João, mas num forró meio desengonçado: um passo para lá, junta no meio; um passo para cá, junta outra vez. O senhor pensa bem: a tal da inflação, troca-troca do dinheiro, era cruzado, era cruzeiro, e o negócio da poupança... o pai tinha uma mixaria guardada que dava quase para comprar um carro velho e no final, quando devolveram, não comprava nem a roda.
“A mudança que vem só muda o que precisa mudar para que tudo continue mais ou menos igual, Geraldo. Eu tô cansado de viver no atrasado, sabe? O Milton Viola costumava dizer que o Brasil tem um longo passado pela frente, de modo que a gente continua usando um retalho de pano novo para remendar uma roupa velha. Trocam os atores, mas os personagens continuam os mesmos…”
Esse nosso Brasil é um braseiro danado mesmo… fica meio que na vontade do sopro, dependendo da ventania, mas a história é agora, Sô João! A lida é diária e a luta é grande, não pode largar mão de jeito maneira. Nós por nós e Deus conosco! O senhor acha então que o país não tem solução?
“Ter até que tem, Geraldo, mas acabou”.
